O fracasso da Seleção Brasileira sob a ótica de métodos ágeis

Neste último sábado, o Chile bateu a Argentina nos pênaltis (chupa, Messi!) e conquistou o título da Copa América em casa.  Mas gostaríamos de falar um pouco sobre outro jogo também decidido nos pênaltis e em que a Seleção Brasileira foi eliminada da competição, e tentar fazer uma análise do que aconteceu desde então.

Jogadores da Seleção após derrota nos pênaltis para o Paraguai

As práticas ágeis na sua equipe poderiam ser aplicadas na Seleção? (Foto: Leo Correa/Mowa Press, em Carta Capital)

Claro que aqui não somos comentaristas esportivos nem temos a pretensão de ser.  Mas, usando um termo comum do jargão da área de tecnologia, é certo que vários de nós somos stakeholders do futebol brasileiro e, como quase todo brasileiro, também temos o direito de dar pitaco no que tem acontecido com nosso futebol, especialmente últimos anos.

Ainda que não sejamos especialistas em futebol, tal como os atuais jogadores da Seleção, muitos de nós já participamos de projetos que foram sucesso e que já fracassaram.  E como todos desenvolvedores com alguma experiência participando de retrospectivas, podemos ter algumas opiniões formadas ao longo do tempo sobre coisas que funcionam e coisas que não funcionam em nossas equipes.

E é sob essa ótica que queremos analisar os erros que muitos especialistas comentam que têm ocorrido no futebol brasileiro, às vésperas do aniversário do fatídico 7 a 1.  Vamos lá!?

Escassez de craques e problemas na formação de jogadores

É discurso comum na cobertura da Seleção que as gerações mais recentes de jogadores não são talentosas quanto as de outras épocas.  Coordenador técnico na última Copa, Carlos Alberto Parreira, diagnosticou em entrevista após a eliminação nas semifinais que “não estamos mais formando jogadores com a mesma velocidade que a 15, 20 anos atrás”.

Especialistas contam que o trabalho de fundamentos do futebol, feito nos clubes, muitas vezes é simplesmente negligenciado ou de má qualidade.  Tem ocorrido inclusive de o jogador local ser efetivamente formado para o futebol profissional apenas no exterior, muitas vezes em mercados periféricos como Leste Europeu, Ásia ou Oriente Médio.

Tentando fazer uma analogia com o mundo do desenvolvimento de software, poderíamos destacar quanto a este aspecto a importância do conhecimento técnico, de se dominar as ferramentas e técnicas com as quais se trabalha para se buscar a excelência técnica no trabalho.  O eXtreme Programming é um bom exemplo.  XP é razoavelmente bem prescritiva, especialmente quanto ao uso de suas práticas primárias e corolárias, que demandam profissionais qualificados e conhecimento técnico específico para serem adequadamente executadas de forma a agregar valor e não serem empecilhos para a equipe (como integração contínua e desenvolvimento orientado a testes, por exemplo).

Tal como no futebol ou em outras áreas, além do estudo, a excelência em determinada atividade vem com o treino, o exercício e a prática.  Daí cada vez mais a importância dos profissionais formados pelas faculdades modernas interagirem, engajarem-se em comunidades, realizarem práticas de programação e exercitar atitudes empreendedoras.

O papel do super-herói e excesso de responsabilidade

Indo um pouco mais além no tópico anterior, é também fácil vermos principalmente a imprensa atribuir ao Neymar a condição de único craque da atual Seleção.  É indiscutível que Neymar é um grande craque.  Mas, ora, como isso pode ser um problema?

Neymar: Seleção de um craque só? (Foto: Melty.fr)

Neymar: Seleção de um homem só? (Foto: Melty.fr)

Neste aspecto, não há nenhum problema em ter um grande craque na equipe.  O problema está quando o sucesso da equipe tem uma grande dependência do “craque”.  Falando assim não é difícil identificar um paralelo com equipes de desenvolvimento.  Quando o sucesso de um projeto depende muito de um único “craque” –tal com na Seleção–, se o mesmo adoecer, se contundir, se lesionar ou tiver qualquer problema que afete seu desempenho, o trabalho da equipe como um todo pode ser comprometido.

Vê-se que o futebol brasileiro ainda valoriza muito o talento individual frente ao trabalho coletivo, quando o ideal para as equipes é tentar alcançar sempre um equilíbrio.  Mas se no futebol isso pode talvez não ser tão simples, buscar o nivelamento técnico entre os craques da equipe e os iniciantes, novatos ou menos experientes deve ser uma preocupação constante.  Daí a necessidade de práticas como a programação em par, por exemplo.  Quem se acostuma a programar em par, aliás, sabe que o trabalho em conjunto sempre supera o esforços individuais.

Sobre este tópico, há que se notar ainda que o Neymar além de ser o craque da equipe, é também o camisa 10, é o capitão do time, é o porta-voz dos jogadores, etc, etc.  O excesso de poder é nocivo em qualquer equipe ágil.  Não obstante Scrum desaconselha, por exemplo, que o ScrumMaster e o Product Owner sejam papéis exercidos pela mesma pessoa.

Este cenário em que o individualismo se sobressai sobre o espírito de equipe evidencia-se quando não há mais sucesso ou fracasso coletivos, e com isso apenas alguns poucos se aproveitam, utilizando o grupo apenas como vitrine.  A despeito do fracasso da Seleção na Copa América e nenhum destaque individual na competição, apenas alguns poucos jogadores do elenco foram negociados com cifras milionárias após a eliminação para o Paraguai.  O comentarista José Trajano da ESPN contemporiza: “Só pode ser lavagem de dinheiro”.

Técnico estrangeiro?

Foto de alguns técnicos estrangeiros

Sampaoli, Guardiola, Mourinho, Bielsa. Novas ideias enriquecem equipes? (Fotos: Terra)

Os problemas do futebol brasileiro dentro e fora de campo são vários.  Mas se a questão da corrupção é caso de polícia, como começar a resgatar a confiança da Seleção e começar a projetar melhores resultados no futuro?  Há quem defenda que uma possível saída seria a contratação de um técnico estrangeiro.  Mas qual poderia ser o impacto de uma medida como essa?

A resposta parece evidente.  Ter equipes heterogêneas, com pessoas de pensamentos, vivências, culturas e ideias diferentes é algo importante não apenas para se buscar a multidisciplinariedade mas também para aumentar entropia da equipe e possibilitar o enriquecimento de experiências e o crescimento pessoal e profissional da equipe como um todo.  Do contrário, corre-se o risco da equipe estagnar, tentando resolver sempre da mesma maneira os mesmos problemas, deixando de evoluir em vários aspectos.

Isso parece particularmente ilustrativo a respeito da evolução (ou falta de evolução) do futebol brasileiro quando lembramos que os técnicos dos maiores clubes do Brasil até pouco tempo continuaram exatamente os mesmos de há quase 20 anos.

Se no futebol a questão é polêmica, em equipes de software modernas é consenso.  A propósito, o ambiente para networking, troca de experiências e renovação de ideias é uma das principais vantagens dos ambientes de coworking.  Ao invés de ficar emperrado trabalhando num dado problema em casa há muito tempo, experimenta ir ao coworking.  Ao interagir com pessoas diferentes com ideias diferentes você (e todos) terá muito a ganhar.

E você, o que tem a dizer?

Êxito em qualquer atividade exige colaboração e trabalho em equipe.  Além do que é missão quase impossível tentar esgotar esse assunto num único post.  Assim, é claro que este artigo não estará completo sem a sua participação!

Você que trabalha em equipe desenvolvendo software ou realizando qualquer outra atividade, quais as coisas que acha mais importante para se ter sucesso trabalhando em conjunto?  E você arrisca que alguma dessas coisas poderia se aplicar à Seleção Brasileira?

Este artigo continua nos comentários.  Grande abraço e fiquem ligados!

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3 comentários sobre “O fracasso da Seleção Brasileira sob a ótica de métodos ágeis

  1. A minha opinião: Futebol é esporte coletivo logo ele exige trabalho em equipe. Os métodos ágeis também requer trabalho em equipe exige colaboração e multidisciplinaridade para funcionar.
    Ter talentos individuais, leia-se carregadores de piano ou super-heróis, na maioria das vezes não suficiente para alcançar resultado, exemplo: Seleção Brasileira, de 2015, 2014 e 2011.
    Escrevi um post sobre assunto: Talento individual não é suficiente para a equipe ter sucesso

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  2. Gostei do post, Marcelo. Parabéns!

    Acho que os tópicos estão bem encaixados entre o mundo do futebol (na minha humilde experiência) e a prática ágil, ao menos na maioria dos projetos que participei e tb conduzi. Só fico um pouco incomodado com o ponto “trabalho em grupo sempre supera o esforço individual”, se referindo ao pair programming. Não acho que isso seja tão verdade quanto a expressão enfatiza ser. Programação em pares é especialmente útil, entre outros pontos, no nivelamento e equalização do conhecimento e práticas dentro do time. Por exemplo, um time recém formado, com membros mais experientes tecnicamente e outros nem tanto. Neste cenário (não apenas este), pair programming é excepcionalmente bom para o time. Quando o time é mais maduro e entrosado (conhecimento nivelado, disciplina intrínseca e espontânea, mais tempo juntos, vários projetos juntos, etc), o time vai produzindo e entregando naturalmente mais rápido e com qualidade, sem fazer PP o tempo todo ou quase nunca. Quando há algo, uma necessidade que gera uma retomada da prática (novo membro, grande refactoring, etc), o time maduro percebe e atua, de novo, naturalmente.

    De novo, parabéns.

    Abs.

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