Como usamos Ágil: OnCast

Este é o primeiro artigo de uma série intitulada “Como usamos Ágil”. Tendo como inspiração o livro “Scrum e XP direto das trincheiras” (Scrum and XP from the trenches), de Henrik Kniberg, no qual ele conta em detalhes como usa Scrum e XP, pretendemos entrevistar algumas empresas brasileiras que usam metodologias ágeis no seu dia-a-dia.

Sabemos que a principal dificuldade encontrada por iniciantes em Ágil é justamente pôr em prática tudo o que estudou. Principalmente porque a grande maioria das empresas ainda não adotou tais metodologias, somos muitas vezes pioneiros em adotar Ágil na empresa em que trabalhamos.

Diferente dos livros que dizem o que devemos fazer, mostrar de forma prática como as empresas usam as metodologias pode ajudar a diminuir a distância que separa a teoria da prática, e de repente evitar que alguns erros sejam cometidos devido à inexperiência. Esse é o principal objetivo desta série.

A primeira empresa entrevistada foi a OnCast, de Florianópolis, Santa Catarina. Entrevistei Samuel Crescêncio, um dos fundadores da empresa. Segue o resultado dessa entrevista:

TaSafo: Quais metodologias ágeis são utilizadas na OnCast?

OnCast: Usamos um mix de práticas baseadas nos nossos princípios que são adaptadas ao contexto dos projetos. Temos como base da nossa cultura os princípios de Lean e do manifesto ágil. Para implementar os conceitos ágeis, nós temos uma figura que é parecida com uma pirâmide: no topo, temos Lean e os nossos valores, que é o que define nossa cultura; na parte intermediária, temos a área de gestão de projetos, onde normalmente usamos Scrum, e em alguns casos um modelo parecido com Lean; na base da pirâmide, temos a engenharia de software, que é onde utilizamos algumas práticas do XP, como os testes automatizados, integração contínua, simplicidade e refatoração constante, que dão sustentabilidade para que possamos obter os valores das metodologias que utilizamos.

TaSafo: Quais práticas desse mix Lean + Scrum + XP são utilizadas por vocês?

OnCast: Utilizamos o Scrum na íntegra. Já do XP, fazemos programação em par para transferência de conhecimento para um novo membro da equipe e para tarefas complexas; fazemos move people around para promover um conhecimento amplo sobre o código para todos dentro das equipes. Além disso, utilizamos código coletivo; integração contínua; testes em todos os níveis (unidade, integração, funcionais, aceitação), em sua maioria automatizados; em alguns casos, utilizamos TDD.

TaSafo: Em relação ao Scrum…
Como fazem o product backlog?

OnCast: Uma pessoa responsável pelos projetos da OnCast se reúne com o cliente para viabilizar e estimar o projeto. Salientamos nesse momento que essa estimativa é muito crua, e que uma estimativa mais real e detalhada será feita pela equipe de desenvolvimento. Nesse momento criamos algumas estórias de alto nível, que farão parte do product backlog. Durante o desenvolvimento o backlog geralmente é alterado.

TaSafo: Qual o tempo de um sprint?

OnCast: Isso varia de projeto para projeto. Mais além: temos projetos que o tempo do sprint é fixo; em outros é variável. Usamos sprints menores em projetos pequenos para aumentar o feedbak, o aprendizado e a correção de problemas. Em projetos mais longos, podemos usar sprints maiores.

TaSafo: Quem é o product owner (PO) e como ele age?

OnCast: Nesse caso o Scrum é bem interessante para nós. Como fornecemos outsourcing, o Scrum promove uma boa separação de papéis e responsabilidades: o PO fica responsável pelo negócio, enquanto que a equipe cuida da tecnologia. Muitas vezes o cliente possui vários stakeholders para um projeto, então a centralização de um único PO como o representante deles no projeto é muito importante. Esse PO é quem participa das reuniões de planejamento, nas quais o PO vai até a sede da OnCast ou a nossa equipe vai até o cliente. Além disso, temos comunicação direta com o PO pessoalmente ou através de telefone, e-mails, etc.

TaSafo: O que acontece se o time percebe que não vai conseguir entregar o sprint backlog?

OnCast: Nós sempre trabalhamos de forma colaborativa com o nosso PO, então sempre informamos os problemas a ele, deixando o projeto com boa visibilidade. De qualquer forma, quando acontece um problema crítico, utilizamos uma técnica do Lean, que se chama stop-the-line, que significa: parar a linha de produção, corrigir o problema pela raiz, para então voltar à linha de produção. Então, quando usamos stop-the-line, dependendo do problema a iteração inteira pode ser cancelada, mas o que geralmente acontece é que tomamos algumas ações para mitigar aquele risco ou para diminuir o impacto daquele problema no final da iteração, objetivando manter o prazo da iteração inalterado e entregando software com valor agregado ao cliente. Pode ser que precisemos cortar escopo, então fazemos isso junto ao PO. Assim como nós podemos querer alterar o product backlog, o cliente às vezes identifica que suas prioridades mudaram no meio do sprint. Fazemos então o stop-the-line, damos a oportunidade para ele substituir funcionalidades por outras de mesmo valor. Nós não pegamos mais capacidade do que aquela que podemos produzir. Conhecemos nossa velocidade e o esforço das estórias, então permitimos que o PO altere as estórias de modo que elas se adequem a nossa velocidade.

TaSafo: E quanto aos bugs encontrados após o término do sprint, o que acontece com eles?

OnCast: Ao ser notificada de um bug, a equipe imediatamente cria um item no backlog (estória), que será priorizado pelo PO. Dependendo da prioridade esse item pode entrar no sprint em andamento, ou nos próximos sprints. Como os bugs sempre entram no product backlog, não usamos ferramentas de bug tracking para gerenciar isso.

TaSafo: Existem várias equipes trabalhando simultaneamente? Quantas pessoas cada equipe possui?

OnCast: Isso depende das necessidades de cada projeto. Hoje temos 5 equipes trabalhando em projetos diferentes. Em geral as equipes têm de 4 a 6 pessoas, mas já tivemos equipes de 2 e 3 pessoas para projetos menores.

TaSafo: Ao término de um projeto, o que acontece com a equipe de desenvolvimento?

OnCast: Como trabalhamos com prestação de serviços, estamos sempre preocupados com a demanda de projetos e relacionamos isso com a nossa capacidade produtiva. Então estamos sempre prospectando novos projetos, constantemente visitando clientes e avaliando oportunidades. O que tem acontecido ultimamente é que as equipes não têm ficado desalocadas. No dia seguinte após o término de um projeto, tem outro esperando para começar.
Mas quando ocorre de uma equipe ficar ociosa entre um projeto e outro, ela fica livre para inovar, adquirir conhecimento ou mesmo para trabalhar nos nossos projetos open-source.

TaSafo: Como é o ambiente físico de trabalho? As equipes ficam distribuídas geograficamente?

OnCast: Nós temos 2 laboratórios de desenvolvimento: um deles possui um ambiente todo aberto e grande, não possui divisórias entre as mesas, todo mundo fica no mesmo cômodo; o outro é uma casa que foi transformada em laboratório. Nele, as equipes se instalam nas dependências da casa. Nessa casa, temos um lounge com uns puffs onde o pessoal costuma relaxar, tirar uma soneca depois do almoço, etc. O pessoal está até querendo botar um videogame lá. Temos uma cultura de liberdade e tentamos deixar o pessoal bem à vontade. Por exemplo, no verão, as pessoas gostam de ir trabalhar de bermuda e chinelo de dedo; temos um horário de trabalho flexível, desde que respeite as necessidades do time. Tentamos deixar as pessoas confortáveis, porque o objetivo é promover a criatividade, então o ambiente lá é bem aberto.

Daily meeting de uma equipe

Daily meeting de uma das equipes

Com relação ao daily meeting, sempre fazemos na frente do dashboard. Cada equipe possui um dashboard e um burndown chart e é lá que ocorre o daily meeting. Não existe a obrigatoriedade de ficar em pé, mas seguimos a regra de 15 minutos para a reunião, nos quais as pessoas devem responder as 3 perguntas do daily Scrum meeting.

TaSafo: Como são feitos os contratos entre a empresa e os clientes? Vocês usam contrato de escopo negociável?

OnCast: No início foi difícil vender o primeiro projeto de escopo aberto. O cliente não queria e acabamos fechando um projeto com escopo fechado. Trabalhamos utilizando práticas ágeis, estimando com story points e oferecemos ao cliente a possibilidade de mudar o escopo, contanto que não alterasse o custo final do projeto, ou seja, ele poderia trocar uma funcionalidade que custasse 3 story points e colocar outra que também custasse 3 story points.

Depois disso nós conseguimos estabelecer um relacionamento muito interessante com os clientes e passamos a usar um modelo de contrato de escopo negociável. Nesse caso, nós fechamos o custo por hora, sem cobrar valores diferenciados para os membros da equipe. Dessa forma nós fechamos um valor por equipe, e não por pessoa. Funciona assim: o cliente tem um projeto e pede uma equipe de 4 pessoas para desenvolvê-lo. Fazemos então uma estimativa na qual achamos que, por exemplo, 6 meses de desenvolvimento para a equipe de 4 pessoas são suficientes. A partir de então o cliente paga mensalmente o que foi gasto em esforço naquele mês. Já ocorreram casos de projetos menores, em que fizemos uma estimativa e gastamos menos esforço. Nesses casos, nós só cobramos pelo esforço entregue, mesmo que a estimativa tenha sido maior. Com isso o cliente adquiriu confiança na empresa, o que nos permitiu usar contratos de escopo negociável.

Hoje só usamos esse tipo de contrato (de escopo negociável) e até recusamos alguns contratos de escopo fechado. Com o tempo, nós adquirimos uma certa habilidade em conversar sobre os processos ágeis e mostrar os nossos casos de sucesso, então quando um cliente aparece com um projeto de escopo fechado, geralmente acabamos convencendo-o de que o modelo de escopo negociável será muito mais interessante para ele.

TaSafo: Existe algum aspecto que marca seu método? Algum toque especial fora do padrão da metodologia (nesse caso, fora do Scrum)?

OnCast: Sim, utilizamos a análise SWOT para as retrospectivas. Avaliamos as forças e fraquezas daquilo que está sob o controle do time (aspectos internos) e as oportunidades e ameaças do que é externo ao time. É muito legal fazer isso e tem sido um ponto fundamental no nosso processo de melhoria contínua.

Dashboard

Dashboard

Utilizamos o Scrum também para gerenciar outras áreas da empresa, como o marketing e o administrativo-financeiro. Nesses casos utilizamos um dashboard diferenciado, que também é um kanban, com as tarefas a fazer, o que está sendo feito e o que já foi feito, mas criamos um esquema de priorização diferenciado, que é distribuído ao longo das datas. Com isso, temos visibilidade e não corremos o risco de esquecer de fazer alguma coisa a ser feita em determinada data. O interessante é que estamos conseguindo aumentar bastante a produtividade desses 2 setores utilizando Scrum, isso é bem legal.

2 comentários sobre “Como usamos Ágil: OnCast

  1. Pingback: » OnCast no TáSafo

  2. Interessante como existem empresas que ainda se preocupam em disseminar o conhecimento.

    Hoje o que mais se vê por aí é empresas adotam agile de forma escondida, sem compartilhar com a comunidade online.

    Parabéns à iniciativa do blog! Excelente ideia!

    Um abraço,

    Curtir

O que tu achas?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s